domingo, abril 6, 2025
InícioEventosHip hop de fronteira: Cotidiano Difícil ocupa a Praça do Rádio com...

Hip hop de fronteira: Cotidiano Difícil ocupa a Praça do Rádio com rima e resistência

Atração do Campão Cultural, grupo levou ao palco a realidade das quebradas de Corumbá e a resistência pantaneira

Na última sexta-feira (04), a Praça do Rádio Clube, em Campo Grande foi tomada pela potência do hip hop de fronteira. Diretamente de Corumbá (MS), o coletivo Cotidiano Difícil levou ao palco do Campão Cultural um espetáculo que atravessou o entretenimento e mergulhou fundo na denúncia social, no ativismo e na resistência periférica. Com rimas afiadas, teatro performático e muita presença de palco, o grupo apresentou a força do hip hop pantaneiro, que nasce no calor das quebradas e carrega as dores e esperanças de uma região marcada pela desigualdade e pelos impactos ambientais.

Hip hop de fronteira: Cotidiano Difícil ocupa a Praça do Rádio com rima e resistência

A apresentação começou com uma encenação teatral que situou o público sobre a trajetória do movimento hip hop em Corumbá, as dificuldades enfrentadas por artistas da cidade e as múltiplas camadas de exclusão vividas por pessoas negras, periféricas e LGBTQIAPN+. O grito contra as queimadas no Pantanal, os descasos do poder público e a violência simbólica e estrutural que atinge a população marginalizada foram ganhando forma nas rimas dos MCs.

Para Safica Mc, uma das integrantes do coletivo, o Cotidiano Difícil é muito mais que um grupo artístico: é um projeto de vida que resiste com as próprias mãos. “Demos início em 2016 com as ações sociais na cidade de Corumbá, levando trabalhos para outras cidades através da cultura hip hop. O coletivo é uma junção de pessoas de diferentes comunidades que se unem para atuar nas quebradas, principalmente com as crianças, porque elas são o nosso futuro. Levamos oficinas de breaking, batalhas de freestyle, ações de Natal com brinquedos, roupas e jantares. Tudo com nosso próprio esforço, vendendo coisas, arrecadando doações, sem nenhum fim lucrativo. É sobre essência, persistência, guerrilha informal”, explicou.

Ao longo da performance, cada integrante reforçou a identidade do coletivo como um espaço de acolhimento e representatividade. Para Ibxd o Cotidiano Difícil tem sido um lugar seguro e potente para pessoas LGBTQIAPN+, em uma sociedade que ainda impõe tantas barreiras. “Eu sou gay, e sei como é difícil viver sendo artista, sendo dançarino, sendo independente e ainda lidar com o preconceito. Mas o coletivo existe exatamente para isso: pra gente se acolher, aprender juntos e seguir resistindo. Estamos quebrando as barreiras da homofobia e mostrando que o hip hop pantaneiro também é feito de diversidade.”

A apresentação também contou com a presença de outros nomes da cena corumbaense, como o rapper Big Jhow, do Poetas do Morro, que reforçou o papel do rap como ferramenta de transformação social. “O rap corumbaense vem com a missão de implantar indignação contra o sistema através da palavra. A gente quer conquistar as crianças, porque elas são o futuro da nossa nação. O rap pantaneiro é isso: voz da comunidade, ação social nas quebradas e resistência onde falta tudo.”

A noite no Campão Cultural foi marcada pela pluralidade musical, com a mistura de estilos e estéticas que demonstram a diversidade da produção artística brasileira e sul-mato-grossense. Além do Cotidiano Difícil, passaram pelo palco nomes como Bojo Malê, Jackeline Costa e o grupo paulista Mental Abstrato, misturando ritmos do Carnaval ao jazz e ao rap experimental. Para AC, outro integrante do coletivo, essa combinação foi um dos pontos mais fortes do evento. “O Campão é um bagulho muito louco, mano. Misturar Carnaval, rap, jazz, tudo no mesmo palco. É gratificante demais estar aqui. A gente tá representando com responsabilidade.”

O público, por sua vez, também respondeu com entusiasmo. A videomaker Amanda França, que acompanha a cena do hip hop há anos, veio ao Campão para prestigiar os artistas corumbaenses. “A gente veio fazer essa troca, que é tão importante na nossa cultura. O hip hop é isso: estar junto, se fortalecer, se reconhecer. Eles sempre estão com a gente e hoje foi dia da gente estar com eles.”

A passagem do Cotidiano Difícil por Campo Grande não foi apenas mais uma apresentação dentro da programação, foi um ato político, poético e coletivo. Um manifesto que mostrou que o hip hop pantaneiro pulsa vivo nas periferias, nas margens, nas matas queimadas e nas palavras que gritam contra o silêncio imposto. Com arte e afeto, o grupo transformou a Praça do Rádio em trincheira cultural, onde se luta com rima, dança e solidariedade.

texto: Evelise Couto

fotos: Altair dos Santos

 

Fonte: www.fundacaodecultura.ms.gov.br

VEJA TAMBÉM

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Matérias

Comentários